Entrevista com a Cats in the Sky, desenvolvedora do game brasileiro Cargo Delivery

Recentemente entrevistei a Cats in the Sky, desenvolvedora do game brasileiro finalista do IndieCade Cargo Delivery (leia mais sobre aqui). Elaborei em algumas perguntas alguns dos assuntos sobre a desenvolvedora e o seu game que para mim seria de importância para vocês, leitores do blog.

Sendo essa a minha primeira entrevista — já que eu realmente não tenho uma experiência maior em entrevistas, espero que considerem as limitações e aprecie toda a entrevista.

Então, vamos lá! Leia a entrevista abaixo:

Play Indie Games: Foi difícil montar uma equipe, organizá-la as tarefas e prepará-la para criar um game comercial?

Cats in the Sky: A ideia de montarmos uma equipe se iniciou por conta de outro concurso, aqui no Brasil, o BRGames no ano passado. Para este concurso a equipe original era com os 3 sócios: Kei, Gabs e Gui. Acabamos desistindo do BRGames por conta de prazo e por causa de algumas exigências do concurso mas a ideia de montar uma equipe para o desenvolvimento de jogos permaneceu. No final do ano passado, resolvemos montar a Cats in the Sky com os 3 sócios e acabamos chamando o Murillo para fazer o design de som dos nossos jogos. Fizemos inicialmente o Sally’s Cats que foi publicado pelo Newgrounds. Era um jogo experimental baseado em física. A organização de nossa equipe é feita com certo rigor. Montamos cronograma para cada projeto que decidimos realizar e buscamos segui-lo à risca. No começo, trabalhamos somente com um jogo de cada vez mas a partir do final do Cargo Delivery, passamos a trabalhar em mais de um projeto simultaneamente.

Não foi muito complicado trabalhar assim porque com exceção do Gui, todas as outras pessoas da equipe já tinham trabalhado em algum projeto de jogo antes. No início do Cargo Delivery, chamamos o Chris para trabalhar na arte junto com o Gui e o Cargo foi finalizado com uma equipe de 5 pessoas.

Play Indie Games: Atualmente pelo o que eu pude ver no site oficial do estúdio vocês são cinco. Poderia me dizer um pouco sobre vocês e suas funções exercidas?

Cats in the Sky: A Cats tem 4 pessoas fixas na equipe: Kei, Gabs, Gui e Murillo. Kei cuida da parte burocrática e administrativa da Cats in the Sky. Ela também faz o projeto dos jogos e toda a documentação técnica que é mais conhecida como um Game Doc ou um Documento de Game Design. Por ser a mais disciplinada é também quem cuida da produção dos jogos, resolvendo todos os probleminhas de comunicação entre a equipe, o acompanhamento do cronograma etc. Gabs é o programador mas além de programar ele também auxilia no level design de alguns jogos e cria e produz todos os vídeos dos jogos. Guilherme é o artista. É dele a direção de arte de quase todos os nossos projetos. Gui é ilustrador e animador 2D e é o responsável pela arte (personagens e cenários) dos jogos da Cats in the Sky. Também faz todas as ilustrações para os materiais extras que oferecemos como presentes no nosso site. Murillo é compositor e o designer de som da equipe. Embora ele não seja um dos sócios, ele é um membro fixo na equipe pois está conosco desde o primeiro jogo e nunca mais se afastou. Muh tem um banda em paralelo mas sempre consegue conciliar os dois trabalhos.

Conforme o projeto, convidamos outras pessoas para participar especificamente no projeto. Estamos com 2 projetos de jogos para o ano que vem. Um 2D e um 3D. Para o jogo 3D a equipe conta com 7 pessoas. Nós 4 mais um modelador 3D (Bruno), um animador e modelador 3D (Mau Mazza) e uma pessoa somente para desenvolver o level design desse jogo (Renato). Para o jogo 2D a equipe é formada pelos 4 membros fixos.

Play Indie Games: Para vocês quais os verdadeiros propósitos alimentaram a vontade de desenvolver games?

Cats in the Sky: Bem, dinheiro não foi! Hahahaha. Nossos jogos ainda não nos mantém financeiramente e acabamos realizando outras atividades fora da Cats para o nosso sustento. Gostamos de jogos, somos gamers, quase todos da equipe tem algum tipo de envolvimento extra com jogos além do fato de jogarmos. Viemos de um curso superior de Design de Games então também ficou mais fácil montar a equipe e achar pessoas com vontade de trabalhar na área. Também acreditamos que é possível desenvolver jogos para entretenimento que sejam originais e não dependam de um capital gigante com uma equipe imensa como sãos os jogos dos grandes desenvolvedores internacionais. Acreditamos nos indies como uma possibilidade real para o Brasil neste seguimento.

Play Indie Games: Quando e através de que meios surgiu a ideia de criar um game como Cargo Delivery?

Cats in the Sky: A ideia para o Cargo Delivery surgiu no início do ano, no final de janeiro. Fizemos uma reunião entre os 3 sócios para discutir possibilidades e ideias para novos jogos e o Cargo surgiu a partir de um jogo que seria para empilhar brinquedos. Dos brinquedos chegamos a cargas e depois decidimos que iria ser empilhamento de cargas marítimas porque a física aplicada ao jogo na água seria mais interessante do que em uma estrada. As ideias para nossos jogos geralmente partem da aplicação de física em algum objeto ou situação. Gostamos de física em jogos.

Play Indie Games: Quanto tempo exatamente foi necessário para finalizar o processo de desenvolvimento?

Cats in the Sky: Cargo Delivery foi um projeto que durou cerca de 5 meses. Este tempo é estimado pois paramos por 2 semanas para resolver outras coisas daí retomamos a produção e fizemos em nosso tempo disponível, isto é, não trabalhamos neste projeto 8 horas por dia, 5 dias da semana.

Play Indie Games: Ao que parece Cargo Delivery é uma experiência única para todos vocês, poderia me dizer como foi estabelecer os primeiros passos no desenvolvimento do mesmo?

Cats in the Sky: Pergunta difícil esta. O Cargo Delivery surgiu da ideia de um jogo de empilhar brinquedos, como já foi dito mas depois que definimos que seria um jogo de cargas, fomos desenvolvendo melhor esta ideia. Neste ponto entra o trabalho da Kei: detalhar cada aspecto do gameplay , o que o jogador fará, como ele fará, que recursos ele terá, por exemplo. Depois disso, definiu-se os tipos de cargas e formatos principais. Nos formatos tivemos problemas especialmente na implementação pois as formas muito irregulares das cargas não permitia um bom feedback ao jogador. Gabs definiu as formas geométricas de base para a programação e o Gui desenhou cada carga dentro do formato pré estabelecido, rigorosamente.

Play Indie Games: Entre o período dedicado ao desenvolvimento do game a equipe esteve focada inteiramente neste ou dividida com outras formas de trabalho?

Cats in the Sky: Como já dissemos, alguns tem outras atividades além dos jogos da Cats in the Sky. Gabs e Gui dedicam-se quase exclusivamente à empresa profissionalmente mas a Kei trabalha em outro lugar também. O Muh tem a banda dele além da Cats e está começando a fazer shows com a banda nos finais de semana. Além disso, Gabs e Muh estão terminando a faculdade também.

Play Indie Games: Quais as ferramentas utilizadas no desenvolvimento do game e porque estas seriam as ideais para todo esse processo de desenvolvimento?

Cats in the Sky: Trabalhamos com softwares gráficos e para tratamento de imagens como Adobe Ilustrator e Adobe Photoshop além do Adobe Flash e Flex Builder para a produção do Cargo Delivery mas este jogo teve muita de sua produção de forma analógica. Os concepts e desenhos finais de cenários e animações foram todos feitos a mão, com o auxílio da mesa de luz.

Também, durante o desenvolvimento, fizemos muitos estudos e testes e para isso, usamos protótipos pequenos que nos ajudaram a solucionar melhor as coisas para o jogo e verificar a aplicação de nossos conceitos.

Play Indie Games: Como é criar um game fora dos conceitos padrões dos games atualmente criados aos montes no Brasil cujos fins acabam sempre sendo educativos ou quaisquer pouco explorados no quesito entretenimento.

Cats in the Sky: Desde o começo da Cats in the Sky, não queríamos fazer jogos educativos ou de treinamento. Advergames também não nos interessa. Enfim, nosso posicionamento é claro: fazemos jogos para entretenimento somente. Fazer jogo para entretenimento pode parecer mais fácil porque aparentemente o desenvolvedor tem mais liberdade. Por um lado, isto é verdade, por outro, é um problema porque o público de jogos de entretenimento é mais exigente com o jogo em si. O jogo precisa ser interessante, precisa ser atraente, precisa ser divertido e isso é um problema porque diversão varia muito de pessoa a pessoa.

Play Indie Games: Em Cargo Delivery se nota muito um conceito artístico fascinante, poderia me dizer um pouco sobre este conceito?

Cats in the Sky: Trabalhamos em cada detalhe do jogo pra deixá-lo com um visual bem característico; buscamos uma linguagem que se aproximasse ao máximo de ilustrações manuais, mantendo sempre o traço original do lápis, mesmo que tudo tivesse que passar pelo computador depois. Seguindo sempre essa ideia inicial colocamos um pouco de fantasia nos objetos e situações do jogo, dando bastante importância para as cores e texturas.

Play Indie Games: Que dificuldades requisitaram maior atenção da equipe no desenvolvimento do game?

Cats in the Sky:

Dificuldades:

1: Fazer uma “transportação de cargas” perder a conotação de “trabalho chato” para “ação divertida”, pois é difícil transformar uma tarefa rotineira de ‘transportar objetos de um lugar para o outro’ parecer divertida. Tivemos de explorar e “cartunizar” os desafios de transportar cargas diferentes e, também, os desafios que o mar oferece, como marés, baleias, clima instável e outros barcos que cruzam o caminho.

2: Implementar os desafios em um ambiente bidimensional. As baleias, os tubarões e as chuvas, conseguimos implementá-los em um ambiente 2D sem muitas dificuldades, já os barcos piratas que vêm em direção ao barco, tivemos de implementar um pseudo 3D, fazendo com que o mar também tenha esta ilusão, em função disto, foram criadas várias “camadas” de mar cartoon, proporcionando uma profundidade, mesmo em 2D, para o jogo.

Play Indie Games: Qual é a sensação de ter criado o primeiro indie game brasileiro entre os finalistas do IndieCade?

Cats in the Sky: É muito bom. Não esperávamos por isso porque foi o primeiro jogo que submetemos a um festival internacional e o IndieCade tem muita adesão. Depois do IGF é o maior festival internacional de indie.

Play Indie Games: Para encerrar, o que você tem a passar para os atuais e futuros desenvolvedores independentes do Brasil?

Cats in the Sky:

1: Estipulem o tamanho do jogo antes de produzirem. Não sabemos quanto a outras engines, mas o Flash tem uma limitação física. Nas nossas últimas experiências com o Adobe Flash , o programa não conseguiu compilar o produto por falta de memória/recursos (segundo o erro). Tivemos de fazer um downgrade do flash CS5 para o flash CS4 porque a versão antiga, por motivos desconhecidos (tentativa e erro), conseguiu compilar o arquivo final. Mas já tivemos estes problemas com versões anteriores, e tivemos que tomar decisões não muito intuitivas para consertar este problema. Vale a mesma crítica quando se faz jogos para mobile.

2: Lancem jogos em portais com bastante exposição na internet. Não há uma receita para este tipo de coisa, mas a abordagem que parece mais provável é estar ciente e ativo na comunidade que você publica as matérias/recursos (e.g. Youtube, gamasutra), pois desse jeito você será mais visto pelo público indie e mainstream.

E é isso, espero que tenham apreciado a entrevista tanto quanto eu.😉

Há… muito obrigado pela a entrevista concedida Cats in the Sky.😀

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